Estimativas apontam que cerca de 600 mil argentinos entraram na pobreza no primeiro trimestre. Apesar da piora, presidente sustenta que o ajuste econômico segue na direção correta e mantém a defesa dos cortes no Estado.
Cerca de 600 mil argentinos teriam passado a viver abaixo da linha da pobreza nos primeiros três meses de 2026. A estimativa, publicada pelo jornal La Nación, acompanha cálculos que apontam alta do indicador de 29,9% para 30,7% entre o fim de 2025 e o início deste ano.Questionado sobre a piora, Javier Milei reconheceu a gravidade da situação social, mas afirmou que o resultado não compromete a estratégia econômica adotada pelo governo. “O panorama é horrível, mas a tendência geral continua excelente”, declarou o presidente argentino nesta terça-feira (4). Milei usa início do mandato como comparação Ao avaliar o cenário atual, Milei preferiu comparar os números com os índices registrados nos primeiros meses de sua administração. Segundo ele, a pobreza chegou a aproximadamente 57% naquele período e, desde então, recuou para perto de 30%. “Não somos a Suíça. O panorama geral ainda é terrível, mas a tendência continua excelente. Eu vejo a tendência: a economia está crescendo, a pobreza está diminuindo e a inflação está caindo”, afirmou. A taxa de 30,7% foi calculada com base nos microdados da Pesquisa Permanente de Domicílios, produzida pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina. O resultado oficial consolidado ainda não havia sido divulgado. Governo considera redução de salários públicos parte do ajuste Milei também voltou a defender a diminuição das despesas do Estado. Desde que assumiu a Presidência, seu programa econômico inclui cortes orçamentários, redução de subsídios, desregulamentação e restrição da circulação de dinheiro. O presidente admitiu que os salários pagos pelo setor público perderam valor, mas tratou o movimento como consequência prevista de sua política.“Os salários do setor público estão caindo, mas esse é um resultado desejado do modelo. Significa que o Estado arcará com o ajuste. É a motosserra”, declarou. Apesar da defesa dos cortes, Milei disse que pretende melhorar a remuneração dos profissionais mais qualificados do serviço público. Segundo ele, a medida ajudaria a recuperar a valorização dessas carreiras. Inflação perde força, mas consumo continua pressionado A contenção de gastos e a política monetária mais rígida contribuíram para desacelerar a inflação argentina. A melhora dos preços, porém, não eliminou as dificuldades enfrentadas pelas famílias. A perda do poder de compra e o enfraquecimento da demanda interna continuam afetando atividades como o comércio varejista e a indústria de transformação. O crescimento também não se distribui de maneira uniforme. As áreas mais ligadas ao mercado externo apresentam resultados melhores do que os setores dependentes do consumo doméstico. Petróleo, mineração e agricultura impulsionam atividade Parte da recuperação econômica vem da agricultura, beneficiada pela melhora da produção, e das indústrias de petróleo, gás e minerais.Vaca Muerta, uma das maiores reservas de petróleo e gás não convencional do mundo, tornou-se um dos principais motores da expansão energética argentina. A extração de lítio também ganhou relevância com o aumento da demanda internacional pelo mineral. Enquanto essas atividades avançam, empresas voltadas ao mercado interno ainda enfrentam vendas fracas e dificuldades para retomar a produção. Economia vira motivo de disputa entre Argentina e Brasil Os resultados argentinos também entraram no confronto político entre os governos de Milei e Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de o presidente argentino participar do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência e criticar o governo brasileiro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, reagiu e chamou Milei de “palhaço”. Durigan usou indicadores de inflação, desemprego, risco-país e comércio exterior para sustentar que a economia brasileira apresenta desempenho superior ao da Argentina. Milei, no entanto, mantém o discurso de que os efeitos sociais do ajuste são parte de um processo necessário para reorganizar a economia. A nova alta da pobreza mostra que os resultados positivos defendidos pelo governo ainda convivem com dificuldades para uma parcela significativa da população.FONTE MUNDO AO MINUTO NOTICIAS.