O desmatamento e as queimadas são as principais fontes de mercúrio na bacia hidrográfica do rio Araguaia. O consumo de peixes contaminados com o metal pode causar danos cognitivos.
O mercúrio é um elemento químico (símbolo Hg) que ocorre naturalmente na crosta terrestre. No entanto, as atividades humanas aumentaram significativamente suas emissões devido aos diversos usos na indústria, incluindo o uso hospitalar, na microeletrônica e produção de cloro-soda. No hemisfério sul, sobretudo na Amazônia, as emissões de mercúrio são associadas principalmente à sua utilização na mineração de ouro. Porém, em regiões onde a mineração de ouro não ocorre, a conversão da vegetação natural para as atividades agrícolas (desmatamentos e queimadas), o tráfego de automóveis em rodovias e as usinas termoelétricas são importantes fontes de emissão do mercúrio para a atmosfera e os ecossistemas aquáticos. O mercúrio apresenta diversas formas químicas no ambiente, com diferentes graus de toxicidade e disponibilidade. O mercúrio elementar gasoso (Hg0) é emitido para a atmosfera e pode ser dispersado por longas distâncias até ser depositado na forma de mercúrio inorgânico (Hg2+) nos ambientes superficiais, como no solo, na água e nos sedimentos do fundo dos rios e lagos. Uma vez depositado nestes ambientes, o mercúrio inorgânico torna-se disponível para a conversão em metilmercúrio (CH3Hg+), um composto orgânico que apresenta alta toxicidade e que pode ser absorvido por organismos vivos, representando um risco significativo para a saúde das comunidades biológicas e das populações humanas, especialmente àquelas maiores consumidoras de pescados. Nesse contexto, o mercúrio é considerado um poluente global pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), que promulgou a “Convenção de Minamata”, um tratado internacional que tem como principal objetivo proteger a saúde humana e o meio ambiente das emissões e liberações antropogênicas de mercúrio e de compostos de mercúrio. Para isso, além de controlar o comércio e fornecimento do mercúrio, o texto da Convenção destaca a necessidade de informações sobre o transporte e transformações no destino do mercúrio em diferentes tipos de ecossistemas, assim como o monitoramento dos níveis de mercúrio em regiões geograficamente representativas. Assim, desde 2019, nosso grupo de pesquisa do Laboratório do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais e Limnológicas (NEPAL), da Universidade de Brasília, em parceria com o Laboratório de Biogeoquímica Ambiental WCP, da Universidade Federal de Rondônia, vem desenvolvendo diversos trabalhos sobre a distribuição do mercúrio na bacia hidrográfica do rio Araguaia, uma região de extrema importância ecológica que passou por grandes transformações nas últimas cinco décadas. Continuamos esses trabalhos agora no contexto dos nossos programas de pesquisa em andamento na bacia, o “Araguaia Vivo 2030” (@araguaiavivo) e o “PPBio Araguaia” (@ppbio.araguaia)Transformação nos sedimentos e transporte para as comunidades biológicas As planícies de inundação são áreas críticas para a conversão do mercúrio inorgânico em metilmercúrio. A inundação periódica reduz a oxigenação da água, aumenta o conteúdo de matéria orgânica e o transporte do mercúrio inorgânico contido nos solos adjacentes, criando condições ideais para a produção de metilmercúrio pelas bactérias que colonizam os sedimentos de fundo. A produção de metilmercúrio é estimada através da proporção de metilmercúrio em relação à concentração de mercúrio total, ou seja, todas as formas químicas do mercúrio detectadas em uma amostra. Nos lagos da planície de inundação do rio Araguaia, a produção de metilmercúrio nos sedimentos de fundo é acentuada (até 22%), aumentando a sua disponibilidade para as comunidades biológicas. O mercúrio disponibilizado nos ecossistemas aquáticos é “bioacumulado” na cadeia alimentar. A bioacumulação ocorre quando as taxas de acumulação de mercúrio nos organismos são mais elevadas que a sua capacidade de eliminação. O fitoplâncton, por exemplo, é formado um conjunto de organismos microscópicos aquáticos que realizam a fotossíntese, como as algas e as cianobactérias, e acumulam o mercúrio dissolvido na coluna d’água. O zooplâncton, por sua vez, é composto por animais microscópicos que alimentam do fitoplâncton e outros microrganismos, aumentando o potencial de bioacumulação de mercúrio através da dieta, de modo que estes organismos apresentam concentrações duas a três vezes superiores às observadas no fitoplâncton, caracterizando o processo de biomagnificação, isto é, o aumento progressivo das concentrações de mercúrio ao longo da cadeia alimentar. As plantas aquáticas, chamadas de macrófitas, também desempenham um papel importante para o ciclo do mercúrio nos ecossistemas aquáticos. Além da capacidade de absorção de mercúrio nas folhas e no caule, as raízes das macrófitas capturam o material particulado da coluna d’água e atuam como substrato para a colonização do perifíton, que também é um importante grupo para a bioacumulação e produção de metilmercúrio. O perifíton é representado por complexas comunidades de microrganismos (algas, bactérias, fungos e invertebrados) e detritos orgânicos e inorgânicos aderidos a um substrato, como rochas e plantas aquáticas. Esses diferentes grupos de organismos que atuam como base da cadeia alimentar aquática representam o elo principal para o acúmulo de mercúrio nos peixes, que ocupam os níveis tróficos mais elevados, representando potenciais riscos à saúde humana.Mercúrio nos peixes e riscos para a saúde humana A bioacumulação do mercúrio nos peixes ocorre pela exposição à coluna d’água e aos sedimentos e, sobretudo, através da alimentação. Conforme descrito no tópico anterior, o mercúrio disponibilizado para as comunidades biológicas é acumulado nos produtores primários, e suas concentrações são progressivamente aumentadas de acordo com o nível trófico. Desse modo, o potencial de bioacumulação de mercúrio nos peixes pode variar conforme o hábito alimentar de cada espécie, ou seja, espécies que se alimentam de plantas e detritos apresentam menores concentrações de mercúrio, enquanto a bioacumulação é acentuada em espécies que se alimentam de peixes e outros pequenos animais. Além disso, a bioacumulação pode ser influenciada pelas características de cada indivíduo, de modo que peixes maiores e mais pesados devem ser mais velhos e, consequentemente, estão expostos ao mercúrio por maior tempo. Adicionalmente, o percentual de metilmercúrio nas comunidades biológicas se eleva em relação aos outros compartimentos, chegando entre 70 e 80% nos peixes. O consumo de pescado é a principal via de exposição não ocupacional do mercúrio para os seres humanos. Assim, agências reguladoras nacionais e internacionais determinaram limites de segurança para as concentrações de mercúrio nos peixes e para ingestão de mercúrio pelas populações humanas. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) estabeleceu os limites de segurança de 0,5 mg/kg para espécies não predadoras e 1 mg/kg para espécies predadoras. Em nível internacional, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) determinou o limite de segurança de 0,5 mg/kg independente do hábito alimentar da espécie, com taxa de ingestão semanal tolerável de 1,6 μg/kg por semana para seres humanos. Até o momento, nós determinamos as concentrações de mercúrio em 1604 indivíduos de 50 espécies de peixes que ocorrem na bacia hidrográfica do rio Araguaia. Destes, 42 indivíduos apresentaram concentrações acima dos limites de segurança estabelecidos pela ANVISA, incluindo as espécies mandubé (Ageneiosus brevifilis), sardinha-gato (Agoniates halecinus), apapá (Pellona castelnaeana), piranha (Pygocentrus nattereri), cachorra-facão (Rhaphiodon vulpinus), avoador (Anodus sp.) e sardinha (Triportheus sp.). Entretanto, apesar da proporção relativamente baixa de peixes com concentrações acima dos limites de segurança (cerca de 2,5%), grande parte dos estudos realizados no Brasil demonstraram que o consumo frequente de pescado pode implicar na elevada exposição ao mercúrio nas populações que têm o pescado como principal fonte de proteína, frequentemente ultrapassando o limite tolerável de ingestão. Na bacia hidrográfica do rio Araguaia, populações urbanas que consomem baixa quantidade de pescado (350 g/semana) apresentam baixo risco de exposição ao mercúrio, exceto para espécies predadoras, como piranha (Pygocentrus nattereri e Serrasalmus sp.) e corvina (Plagioscion squamosissimus). No entanto, o consumo moderado (700 g/semana) e alto (1400 g/semana) de pescado, típico de populações ribeirinhas e indígenas, a exposição ao mercúrio excede os limites toleráveis de ingestão para a maioria das espécies avaliadas, incluindo espécies não-predadoras frequentemente consumidas na região, como avoador (Anodus sp.), sardinha (Triportheus sp.), piau (Leporinus sp.) e branquinha (Curimata inornata e Psectrogaster amazonica). O que podemos fazer? A exposição crônica a níveis elevados de mercúrio, principalmente na forma de metilmercúrio, pode causar danos cognitivos, como dificuldades de memória, atenção, coordenação motora e problemas de linguagem. Em crianças e fetos, a exposição ao metilmercúrio pode ser ainda mais prejudicial, resultando em deficiências no desenvolvimento cognitivo, atraso no desenvolvimento motor e déficits no aprendizado. Portanto, o monitoramento das concentrações de mercúrio em diferentes grupos de organismos que compõem a cadeia alimentar aquática é de extrema importância para compreender as vias de bioacumulação nos peixes e estimar os potenciais riscos à saúde humana. Adicionalmente, considerando que o desmatamento é a principal fonte de mercúrio, antes estocado naturalmente no solo, para a atmosfera e os ecossistemas aquáticos do rio Araguaia, a conservação da vegetação natural é fundamental para reduzir a mobilização deste poluente. Atualmente, a legislação ambiental brasileira exige a preservação de, no mínimo, 50 metros de vegetação ciliar em propriedades rurais adjacentes a lagos naturais, e 200 metros de vegetação ciliar para os cursos d’água com largura entre 200 e 600 metros, como o rio Araguaia. No entanto, além de representar uma proporção pequena em relação às áreas destinadas à agropecuária, os limites estabelecidos pela legislação são frequentemente desrespeitados por alguns proprietários rurais. Políticas públicas garantindo Áreas de Preservação Permanente (APPs) realmente eficazes em propriedades rurais, em conjunto com a intensificação da fiscalização, devem contribuir para o controle da degradação do solo e, consequentemente, para o controle do transporte do mercúrio e outros poluentes para os ecossistemas aquáticos da planície de inundação do rio Araguaia. É fundamental que os dados sobre a bioacumulação de mercúrio nos peixes e os riscos à saúde humana sirvam de orientação para as comunidades ribeirinhas quanto ao consumo seguro de pescado, sem, no entanto, incentivar a exclusão dessa valiosa fonte de proteína da dieta dessas populações. Recomenda-se, sempre que possível, a priorização do consumo de espécies que estão na base da cadeia trófica (ou seja, aquelas que se alimentam de detritos e plantas) e que possuem tamanho corporal relativamente pequeno. Esses peixes tendem a apresentar menores concentrações de mercúrio e, ao mesmo tempo, são ricos em nutrientes. Adicionalmente, considerando que o desmatamento e as queimadas são as principais fontes de mercúrio na bacia hidrográfica do rio Araguaia, a conservação da vegetação natural é fundamental para reduzir a mobilização do mercúrio, estocado no solo e na vegetação, para os ecossistemas aquáticos. Lucas Cabrera Monteiro: Doutorando em Ecologia pela Universidade de Brasília (UnB) e bolsista do programa “Araguaia Vivo 2030”. José Vicente Elias Bernardi: Professor da Universidade de Brasília (FUP/UnB). Wanderley Rodrigues Bastos: Professor da Universidade Federal de Rondônia e Coordenador do Laboratório de Biogeoquímica Ambiental “Wolfgang Christian Pfeiffer”. Ludgero Cardoso Galli Vieira: Professor da Universidade de Brasília (FUP/UnB) e Vice-Coordenador do programa “Araguaia Vivo 2030” e do “PPBio Araguaia”.(Fonte Jornal Opção Noticias GO)