Segundo especialistas a inadimplência em alta e o crescimento do crédito a consumidores explicam os spreads mais gordos.
Depois de cair no pós-pandemia, a diferença entre a taxa de juros que os bancos pagam para captar recursos de clientes e o que cobram dos tomadores de empréstimos -o chamado spread bancário- atingiu o maior patamar desde pelo menos 2013, quando começa a série histórica do ICC (Índice de Custo de Crédito), do Banco Central.Essa diferença superou os 15 pontos percentuais neste ano. Em Março, foi de 15,17 pontos, alta de 3,46 pontos em relação ao final de 2020. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, a inadimplência em alta e o crescimento do crédito a consumidores explicam os spreads mais gordos. Apesar do calote mais alto, a rentabilidade do sistema financeiro medida pelo ROE (Return on Equity, indicador de rentabilidade) subiu de um patamar abaixo de 15%, em 2023, para quase 17% no primeiro semestre de 2025, segundo dados mais recentes do Relatório de Estabilidade Financeira, do BC, que aponta "moderada melhora" do retorno no início do ano passado. O spread é uma espécie de ganho bruto dos bancos com as operações de crédito. É a partir dele que as instituições financeiras vão cobrir suas despesas administrativas, pagar impostos e cobrir eventuais calotes em empréstimos, além de extrair seu próprio lucro. Esses fatores, somados à taxa paga pelas instituições financeiras para captar recursos, formam os juros a pessoas físicas e jurídicas. É uma lógica parecida com a de uma indústria, que compra insumos por um preço e vende o produto final por um valor mais alto para arcar com seus custos e lucrar. Há duas formas principais de calcular o spread. O do ICC, adotado pelo Banco Central em seu Relatório de Estabilidade Financeira, é medido a partir das taxas de juros em relação ao total emprestado. Ou seja, além dos novos empréstimos, considera os juros também dos antigos. O jeito mais conhecido é o cálculo a partir dos novos empréstimos. Por esse critério, o spread atingiu 21,84 pontos percentuais no mês retrasado, o maior desde Março de 2017.Independentemente da forma de calcular, o Brasil está entre os cinco países que têm os spreads mais altos do mundo, se forem levados em conta dados de 2024 de 84 países informados pelo Banco Mundial. Isso acontece devido a uma série de fatores, segundo especialistas: o percentual maior de calote, a dificuldade de recuperação de garantias em caso de não pagamento e impostos elevados são alguns dos principais. Além disso, a rentabilidade dos bancos brasileiros é elevada em relação a países desenvolvidos. Um levantamento da Elos Ayta Consultoria com base em balanços mostra que, nos últimos 16 anos, os grandes bancos do Brasil tiveram uma média de ROE de 17,4%, bem acima dos 11,02% das principais instituições financeiras dos Estados Unidos. No ano passado, dos cinco maiores bancos listados em Bolsa do país -Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco, BTG Pactual e Santander-, dois apresentaram ROEs maiores que 20%. A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) afirma que o nível de rentabilidade dos bancos brasileiros está alinhado ao de países emergentes, que tradicionalmente possuem retorno maior do que o dos desenvolvidos, e que está abaixo do patamar de países como México, Peru e África do Sul. INADIMPLÊNCIA EM ALTA O spread se reduziu no pós-pandemia, puxado pelos juros mais baixos da época, que diminuíram o risco de crédito. Hoje em 14,5%, a taxa básica, Selic, ficou abaixo de 10% até o início de 2022. A partir do ano passado, o ganho bruto dos bancos com empréstimos voltou a crescer com força. O movimento coincide com um período em que os brasileiros se endividaram mais. Desde outubro do ano passado, as famílias brasileiras direcionam 29% dos seus ganhos para quitar compromissos financeiros, o maior percentual em pelo menos 20 anos, segundo dados do BC. Preocupado com a situação, o governo federal vai lançar um programa para facilitar o pagamento de dívidas em atraso, chamado de Desenrola 2. A avaliação de economistas é que isso aconteceu pela alta dos calotes acima de 90 dias -a inadimplência está em 4,3%, um dos maiores patamares da história- e pela subida da Selic, que serve de referência para os juros cobrados pelos bancos em operações de crédito e eleva a percepção de risco das instituições financeiras. A lógica é: quanto maiores os juros de um empréstimo, maior é a chance de um indivíduo ou empresa não conseguir quitar aquela operação. Prevendo mais calotes, os bancos cobram mais para oferecer seu produto, o crédito. "Estamos em um momento de juros muito altos, com famílias e empresas muito endividadas. Isso vai potencializando a percepção de risco, de que terão cada vez mais dificuldade em honrar seus compromissos. E isso se reflete no prêmio pedido pelos bancos para emprestar", afirma Silvio Campos Neto, economista-sênior da Tendências Consultoria. Também houve crescimento expressivo na concessão de empréstimos que possuem taxas mais altas, como crédito pessoal e cartão de crédito, linhas nas quais a inadimplência é maior. "O spread cresceu com a inadimplência, que está alta porque o crédito, especialmente a pessoas físicas, cresceu muito nas modalidades mais arriscadas", afirma Rafael Schiozer, professor titular de finanças da FGV Eaesp. "Além disso, com a inclusão financeira, pessoas que antes tinham restrições passaram a ter acesso a mais empréstimos." A inadimplência é o principal componente do spread: dados do Banco Central mostram que ela representou, na média dos últimos três anos encerrados em 2024, a maior fatia (33,45%). As despesas administrativas representaram 24,78%, a margem financeira, 20,9%, e os tributos e as obrigações com o FGC (Fundo Garantidor de Créditos), 20,87%. Para Rubens Sardenberg, diretor de Regulação Prudencial, Riscos e Assuntos Econômicos e economista-chefe da Febraban, o forte crescimento da carteira de pessoas físicas, na qual os empréstimos possuem uma inadimplência e um spread maior, influenciou na alta recente da diferença entre a captação de recursos e os juros na ponta. Em Janeiro de 2020, a participação dos consumidores no total emprestado pelas instituições financeiras era de 58,7%, e isso se elevou a 62,8% em março deste ano, segundo dados da entidade. "Antes a tendência era que a carteira fosse formada por cerca de 50% de crédito a pessoas físicas, cerca de 50% a pessoas jurídicas. Mas isso mudou nos últimos anos. A participação dos consumidores, onde o spread é maior, se elevou muito", afirmou. Sardenberg lembra que os empréstimos de empresas perderam espaço pelo avanço da captação de recursos pelas pessoas jurídicas via mercado de capitais, como debêntures (títulos de dívidas emitidos por empresas) e outros papéis. Na avaliação de Schiozer, o spread tende a diminuir a partir do quarto trimestre deste ano, quando a expectativa é de um arrefecimento maior dos empréstimos. "Os bancos tiraram um pouco o pé do acelerador na concessão de crédito. É óbvio que vai depender também de como a economia vai se comportar, já que o endividamento da população está batendo recorde. E isso não se resolve de uma hora para a outra."FONTE ECONOMIA AO MINUTO NOTICIAS.
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