A natureza concedeu à maria-sem-vergonha um dom raro de transformar um canto esquecido da rua ou da calçada num pequenino altar de flores vermelhas, brancas, rosas. Basta-lhe um punhadinho de poeira numa fresta qualquer para estar viva
Sem que primeiro existam dentro de nós, é impossível vermos as flores de fora. Tenho uma admiração profunda por todas as flores. Elas existem dentro de mim. Vejo-as como esculturas vivas moldadas de beleza e perfume pelas mãos sublimes da natureza. São os paraísos dos insetos onde o néctar tem um papel de divindade. As abelhas – seres mais importantes do planeta – sabem bem disso. Gosto especialmente das que se transformam em frutos e vão para a nossa mesa saciar a nossa fome de todos os dias. Há um porém no meu relato. Existe, portanto, uma pequena rebelde que me encanta mais e é originária de Madagascar: a maria-sem-vergonha (nome malicioso advindo do fato de ela se proliferar com facilidade em lugares mais inóspitos), que é também conhecida como vinca. Seu nome científico é Catharantus roseus. Vejo, na capacidade de sobreviver dessa pequenina flor, uma lição filosófica de minimalismo. Cabe dizer que é uma notável atleta botânica. As orquídeas, que são plantas deslumbrantes e famosas mundo afora, não lhe são adversárias à altura no quesito resistência, pois necessitam de certos cuidados especiais, como luminosidade apropriada, solo fértil, quantidade medida de água. A maria-sem-vergonha, por sua vez, precisa apenas de uma pequena fresta com um pouco de terra. Para sua felicidade, ela não depende de muito para sobreviver. Essa sua característica me leva ao poeta e filósofo americano Henry David Thoreau: “Um homem é rico em proporção ao número de coisas de que pode prescindir”. A natureza concedeu-lhe um dom raro de transformar um canto esquecido da rua ou da calçada num pequenino altar de flores vermelhas, brancas, rosas. Basta-lhe um punhadinho de poeira numa fresta qualquer para estar viva. Floresce em terreno baldio, em muro rachado, em beira do asfalto. Floresce sem pedir licença conforme a natureza lhe ordenou.Sempre que passo por uma, sinto a planta me olhar como se me dissesse: “Vai, Sinésio, tenta também. Brota.” Devo confessar que às vezes até funciona. Existem conselhos que só as flores insolentes podem me dar. Em seu livro “Flores do Mal”, o poeta francês Charles Baudelaire definiu como mal as flores metafóricas nascidas nas regiões sinistras da existência. Os poetas possuem uma destreza especial em colher essas flores que brotam no lodo, no sofrimento, no abismo interior. Dias atrás passei por uma maria-sem-vergonha, toda viçosa, estava com três flores, as primeiras de suas filhas nascidas numa greta da calçada. Não tive como não dar uma pausa no meu caminhar apressado para fazer-lhe um registro fotográfico. Sua teimosia em florir é tão contagiante que chega a ser pedagógica. Ela me ensina persistência, leveza e coragem para enfrentar o mau humor do mundo (e até o meu). Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza. Fonte Jornal Opção Noticias GO
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